Durante a Forest Leaders Missão China, organizada pela AMIF em novembro de 2025, a delegação brasileira teve o privilégio de contar com o Dr. Chen Yong como principal anfitrião no país asiático.
Pesquisador de destaque na área de economia e políticas florestais, ele é uma das principais vozes do governo chinês em temas de sustentabilidade, comércio e inovação verde. Nesta entrevista exclusiva, Dr. Chen fala sobre o que o impressionou no Brasil durante sua passagem pelo nosso país, os pontos de convergência entre as duas potências florestais e sua visão para um futuro de cooperação e parcerias entre Brasil e China:

1. Durante sua visita ao Brasil e após o Workshop realizado em Belo Horizonte pela AMIF, quais aspectos do setor de florestas plantadas brasileiro mais lhe impressionaram em termos de inovação, sustentabilidade ou escala?
Os pontos que mais me impressionaram durante minha visita ao Brasil foram as medidas adotadas pelo país para equilibrar desenvolvimento econômico e proteção ambiental. Especificamente, o Brasil está dando passos sólidos rumo ao desenvolvimento sustentável por meio de restauração ecológica em larga escala, modelos inovadores de agricultura e silvicultura, políticas eficazes de proteção florestal e liderança em cooperação financeira internacional.
- Restauração ecológica em larga escala:
Os planos brasileiros de restauração ecológica são grandiosos e ao mesmo tempo focados em rigor científico e benefícios de longo prazo. Nas bordas da Amazônia, por exemplo, o governo colabora com comunidades locais para recuperar áreas degradadas por meio de técnicas de reflorestamento e restauração do solo. Esses projetos não apenas recuperam a biodiversidade, mas também geram empregos verdes. A restauração melhora ainda a conservação hídrica e reduz a erosão do solo, apoiando a agricultura e a pesca locais. - Modelos inovadores de agricultura e silvicultura:
O Brasil combina conhecimentos agrícolas tradicionais com tecnologias ecológicas modernas. Em estados como São Paulo, agricultores integram espécies nativas em plantações de café ou cacau, o que melhora a fertilidade do solo, reduz pragas e doenças e aumenta a renda por meio da negociação de créditos de carbono. - Políticas eficazes de proteção florestal:
Na Amazônia, o governo criou uma rede rigorosa de áreas protegidas e utiliza monitoramento via satélite para acompanhar mudanças florestais em tempo real. As políticas também incentivam a participação de povos indígenas e comunidades locais, garantindo direitos de uso e benefícios, o que reduz significativamente o desmatamento ilegal e a ocupação irregular. - Liderança em cooperação financeira internacional:
O Brasil desempenha papel central em mecanismos financeiros inovadores para a proteção ecológica. Um exemplo é o Fundo Amazônia, criado em parceria com instituições multilaterais, que atrai investimentos internacionais para a proteção da floresta e projetos de energia renovável. Há também iniciativas voltadas para transformar valor ecológico em benefícios econômicos, como títulos verdes e o mercado de créditos de carbono.
2. Observando a relação entre Brasil e China no que diz respeito às florestas plantadas, em quais áreas o conhecimento, as práticas ou as tecnologias brasileiras podem complementar ou inspirar iniciativas chinesas — e vice-versa?
Como grandes potências florestais e atores fundamentais no desenvolvimento sustentável, Brasil e China têm enorme potencial para cooperação. Tal parceria pode promover a transformação verde do setor florestal e contribuir para a governança climática global. As áreas mais promissoras incluem:
- Compartilhamento de conhecimento e diálogo político:
A China possui vasta experiência em restauração ecológica e manejo florestal sustentável; o Brasil oferece expertise em proteção de florestas tropicais, biodiversidade e adaptação climática. O estabelecimento de mecanismos de diálogo de alto nível e programas de pesquisa conjunta pode facilitar a transferência tecnológica e o fortalecimento de capacidades, envolvendo governos, academia, ONGs e comunidades. - Cooperação técnica e projetos-piloto:
A China é líder em monitoramento por sensoriamento remoto, drones e inteligência artificial. O Brasil domina pesquisa ecossistêmica tropical e conhecimento ecológico tradicional. Projetos-piloto podem combinar essas forças — por exemplo, aplicar tecnologias chinesas de monitoramento inteligente na Amazônia ou adaptar técnicas brasileiras de restauração a áreas degradadas na China. Sistemas agroflorestais brasileiros, como café–cacau–floresta, poderiam ser testados na China; já tecnologias chinesas de carbono em bambu poderiam ser implementadas no Brasil. - Mercados e inovação financeira:
Com um grande mercado consumidor comprometido com produtos sustentáveis, a China pode fortalecer o fluxo de bens florestais verdes com o Brasil por meio da redução de tarifas e certificações mútuas. Parcerias financeiras — como títulos florestais sino-brasileiros — poderiam atrair investimentos globais para a proteção da floresta. Há ainda grande potencial na criação de um mercado bilateral de carbono, combinando tecnologias de redução de emissões da China com a capacidade de sequestro florestal do Brasil.
3. Considerando sua pesquisa sobre políticas florestais e produtos florestais internacionais, como vê o papel dos setores florestais do Brasil e da China no enfrentamento de desafios globais como mudanças climáticas, biodiversidade e bioeconomia?
Brasil e China são forças centrais na governança ambiental global. Sua colaboração é fundamental para enfrentar mudanças climáticas, perda de biodiversidade e promover a bioeconomia.
- Mudanças climáticas:
Os países podem desenvolver tecnologias verdes adequadas a climas tropicais, além de defender conjuntamente, em negociações internacionais, o princípio das “responsabilidades comuns porém diferenciadas”. Isso fortalece as metas globais de neutralidade de carbono. - Conservação da biodiversidade:
Brasil e China podem construir redes de monitoramento transfronteiriças combinando sensoriamento remoto chinês com dados de campo brasileiros. A troca de conhecimento sobre plantas medicinais — como a quina no Brasil e o notoginseng na China — pode impulsionar inovação biomédica e gerar renda local. - Desenvolvimento da bioeconomia:
Laboratórios conjuntos e tecnologias de biorrefino podem transformar resíduos agrícolas em produtos de alto valor. Com mecanismos de facilitação comercial, produtos biológicos sustentáveis podem circular entre os dois países, fortalecendo cadeias verdes.
4. Quais desafios institucionais ou regulatórios você identifica como prioritários para uma colaboração mais estreita entre Brasil e China, especialmente em pesquisa aplicada, certificação ou educação florestal?
O avanço da cooperação sino-brasileira depende de transformar desafios em oportunidades de inovação institucional.
- Coconcepção de padrões:
Diferenças de normas dificultam a cooperação. Os países podem:- Reconhecer mutuamente sistemas de certificação, reduzindo custos do comércio verde;
- Criar mecanismos de compensação ecológica, como créditos de carbono adquiridos por empresas chinesas que apoiem comunidades brasileiras;
- Integrar padrões técnicos em drones, sensoriamento remoto e IA para monitoramento florestal.
- Compartilhamento de dados:
Pode-se desenvolver:- Uma rede conjunta de monitoramento da saúde florestal;
- Um banco de dados de biodiversidade compartilhado;
- Uma plataforma pública multilíngue que envolva a sociedade na proteção florestal.
- Formação conjunta de talentos:
Países do Sul Global enfrentam escassez de especialistas. China e Brasil podem criar:- Programas bilaterais de capacitação técnica;
- Bolsas de inovação florestal;
- Treinamentos comunitários que integrem florestas e geração de renda.
5. Em termos de pesquisa, capacitação e intercâmbio técnico, quais mecanismos ou formatos considera mais promissores para fortalecer os vínculos entre instituições florestais ou de economia florestal do Brasil e da China?
Os mecanismos mais promissores incluem:
- Pesquisa científica conjunta:
- Laboratórios transfronteiriços dedicados a clima, carbono florestal e biodiversidade;
- Transferência de tecnologia, como carbono em bambu na China e sistemas agroflorestais brasileiros;
- Mecanismos de propriedade intelectual conjunta para levar inovações ao mercado.
- Desenvolvimento de capacidades:
- Centros de capacitação em manejo, restauração e finanças verdes;
- Programas de empoderamento comunitário;
- Simulações de políticas para treinar gestores públicos nos dois países.
- Rede universitária conjunta:
- Projetos acadêmicos bilaterais;
- Fóruns regulares como o “Fórum Florestal China–Brasil”;
- Desenvolvimento conjunto de materiais didáticos.
- Diálogo e cooperação em políticas públicas:
- Encontros ministeriais regulares;
- Ação coordenada em mecanismos como a Convenção sobre Diversidade Biológica e REDD+.
6. Finalmente, olhando para os próximos anos, qual é sua visão de uma parceria madura entre Brasil e China no campo das florestas plantadas?
A cooperação entre Brasil e China está redefinindo o papel das florestas plantadas: de simples fornecedoras de madeira para agentes de restauração ecológica, desenvolvimento comunitário e ação climática.
- Restauração ecológica:
A parceria evolui de “quantidade” para “qualidade”, integrando princípios ecológicos e governança sistêmica. Na Amazônia, equipes chinesas combinam conceitos de “silvicultura próxima à natureza” com a ecologia local, fortalecendo a resiliência dos plantios por meio de florestas mistas, espécies nativas e manejo do solo. - Meios de vida comunitários:
Projetos conjuntos no Pará utilizam cooperativas comunitárias para gerir florestas plantadas, reduzindo o desmatamento ilegal. Em Guangxi, modelos brasileiros de “economia sob floresta” foram adaptados, permitindo cultivo de plantas medicinais e aumento significativo da renda de agricultores. - Ação climática:
As florestas plantadas passam a ser parte do arcabouço climático global. A iniciativa conjunta “Ação Climática em Florestas Plantadas” já está integrada às Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs) no âmbito da UNFCCC, fortalecendo metodologias de contabilização de carbono.
O modelo sino-brasileiro demonstra que florestas plantadas podem conectar conservação, inclusão social e neutralidade climática. Com o tempo, esse modelo pode evoluir de prática bilateral para solução global.