A Associação Mineira da Indústria Florestal (AMIF) realizou, em novembro de 2025, a primeira Missão internacional da agroindústria florestal brasileira à China. A iniciativa reuniu empresários, executivos e lideranças do setor em uma jornada de 11 dias por três dos mais importantes polos florestais, industriais e tecnológicos do gigante asiático: Nanning, Shenzhen e Pequim.

Organizada com apoio da Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), a Missão marcou oficialmente o início da estratégia de internacionalização da AMIF e abriu novas portas de cooperação, inovação e desenvolvimento para o setor florestal mineiro e brasileiro.

A delegação, composta por 25 profissionais de quatro estados, participou de visitas técnicas, reuniões institucionais, encontros com universidades, centros de inovação, empresas e representantes do governo chinês, em uma agenda elaborada para ampliar conhecimento, gerar conexões e abrir oportunidades de negócios.

Por que a China foi o destino da primeira Missão?

Segundo a presidente da AMIF, Adriana Maugeri, a escolha da China não foi apenas simbólica, mas estratégica. O país reúne a maior área de florestas plantadas do mundo, um parque industrial altamente tecnológico e políticas robustas de transição energética, colocando-se como um dos principais cenários globais para inovação florestal.

Ainda segundo Adriana, “a China é um dos principais destinos das exportações brasileiras e o maior consumidor mundial de produtos florestais. Entender suas tendências, sua cultura e suas demandas é essencial para que o setor florestal brasileiro se posicione como parceiro estratégico e não apenas fornecedor de commodities”, enfatizou.

Para a presidente, a convergência de agendas entre Brasil e China é evidente: “Queremos transformar esta Missão, que foi realizada com sucesso, no primeiro passo de um ciclo contínuo de cooperação, aprendizado e inovação entre os dois países”, finalizou.

A opinião do anfitrião chinês da delegação brasileira e diretor do Centro de Comércio Internacional de Produtos Florestais da china, Dr. Chen Yong, vai ao encontro das falas de Adriana. Para ele, Brasil e China possuem um enorme potencial de cooperação no setor florestal: “Ao unirmos a experiência brasileira em manejo sustentável com a força tecnológica chinesa, podemos construir um modelo de desenvolvimento verde que sirva de referência para todo o Sul Global”, enfatizou Dr. Chen.

Nanning: conhecimento, política florestal e intercâmbio técnico

A primeira etapa da Missão ocorreu em Nanning, capital da província de Guangxi, no sul da China, onde a delegação participou da 3ª Conferência Mundial da Indústria Florestal (WFIC). O evento, considerado o principal fórum global de tendências e inovação em florestas plantadas, foi palco para a apresentação de Adriana Maugeri sobre o panorama da agroindústria florestal brasileira e sua liderança mundial em produtividade, celulose, madeira plantada e biocarbono.

A agenda continuou com visitas à FOMA, maior fabricante chinesa de máquinas florestais; ao Grupo Fenglin, referência em plantios de eucalipto; e à Xuwo Machinery, principal fornecedora de equipamentos florestais da China. As visitas evidenciaram o interesse chinês por tecnologias brasileiras de manejo, rastreabilidade e eficiência operacional.

Para o diretor florestal da LD Celulose, Rodrigo Coutinho, a imersão foi reveladora: “Participar da Missão da AMIF à China foi uma experiência espetacular, que revelou a impressionante capacidade do país em tecnologia, execução e transformação em pouco tempo. A imersão em plantios, indústrias e centros de inovação mostrou o despertar chinês para produtividade e mecanização, um aprendizado que desafia o setor florestal brasileiro a elevar ainda mais suas ambições”.

Por sua vez, a gerente de planejamento da Klabin, Andréia Pimentel, destacou que a Missão revelou à delegação brasileira a força da estratégia chinesa.

“A missão reforçou minha admiração pela visão de longo prazo da China, que transformou a valorização das montanhas em políticas sólidas de expansão florestal. Impressiona o foco em produtividade e tecnologia, embora ainda haja espaço para avanços em colheita e logística. Ficou claro que o futuro passa por cooperação regional e planejamento estratégico, lições valiosas para o setor florestal brasileiro”.

Shenzhen: inovação, tecnologia e fronteiras digitais

A segunda etapa da Missão ocorreu em Shenzhen, reconhecida globalmente como o “Vale do Silício chinês”. A cidade, um dos maiores polos de inovação do mundo, recebeu a delegação em visitas à Huawei, referência internacional em automação industrial e 5G; à DJI, maior fabricante de drones do planeta; e à BYD, líder global em veículos elétricos e transição energética.

O objetivo foi observar de perto como inteligência artificial, automação avançada, sensores e sistemas aéreos não tripulados podem ser aplicados ao manejo e ao monitoramento de florestas no Brasil.

Pequim: cooperação para aço verde e biocarbono

A etapa final da Missão ocorreu em Pequim, onde a comitiva se reuniu com representantes da Associação Chinesa da Indústria do Aço, do Instituto de Tecnologia de Pequim e das empresas Sany e Jingye. Os encontros trataram de oportunidades para desenvolver o aço verde e impulsionar o uso de biomassa florestal como substituta de insumos fósseis.

A diversidade cultural e econômica da China ficou evidente para o gerente geral da Vallourec Florestal, André Dezanet.

“Conhecemos grandes centros e regiões mais rurais da China. Ficou claro o quanto o país busca liderança global, investe pesado em infraestrutura, tecnologia e inovação. No setor florestal, percebemos um estágio inicial de desenvolvimento, mas com enorme capacidade de reação e aprendizado. Ainda há desafios, como a baixa consciência ambiental e a alta poluição nas cidades, mas o esforço em transição energética é notável”.

Um setor unido em prol do futuro

A Missão da AMIF à China também representou um movimento de fortalecimento interno da entidade. De acordo com a presidente Adriana Maugeri, “levar nossas lideranças para ver de perto a realidade chinesa significa permitir que o setor tome decisões baseadas em experiências diretas, e não apenas em análises ou percepções distantes. Essa proximidade é o primeiro passo para construir alianças sólidas e sustentáveis”.

A visão é compartilhada pela superintendente de Fomento Florestal da SEAPA-MG, Taiana Arriel. “A experiência de conhecer de perto os plantios cultivados, as indústrias e realizar reuniões e visitas técnicas na China foi muito enriquecedora. Vimos como o país aborda pautas como agronegócio, tecnologia, inovação e pudemos constatar o quanto nosso setor florestal é também avançado e destaque global em sustentabilidade, segurança no trabalho e desenvolvimento”.

O caráter coletivo da Missão foi ressaltado pelo superintendente florestal da Sociedade de Siderúrgicas e Fomento Florestal, João Cancio Araújo:

“A experiência profissional, comportamental e afetiva dos participantes foram os principais pilares da Missão. A contribuição técnica e pessoal de cada um foi relevante para o sucesso da jornada. As visitas realizadas irão contribuir significativamente nos portfólios de cada profissional e empresa, bem como a percepção de que a área florestal ainda carece de desenvolvimento de tecnologias”.

Um marco para o setor e o início de um novo ciclo

A Missão China consolidou-se como um divisor de águas para a AMIF e para a agenda florestal nacional. Mais do que uma programação institucional, a viagem simbolizou o início de uma dinâmica colaborativa de longo prazo, capaz de gerar avanços em tecnologia, inovação, sustentabilidade e descarbonização. Os diálogos iniciados na China continuam em andamento e abrem espaço para novos acordos, pesquisas conjuntas e cooperação técnica.

Para a AMIF, o aprendizado é claro: a bioeconomia é global e quem pretende liderar o futuro precisa construir alianças desde já.